sexta-feira, 29 de abril de 2011

A divisão de Camelos- O homem que calculava



Onde é narrada a singular aventura dos
35 camelos que deviam ser repartidos por
três árabes. Beremiz Samir efetua uma divisão
que parecia impossível, contentando
plenamente os três querelantes. O lucro
inesperado que obtivemos com a transação.

Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu
uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande
talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos perto de um antigo caravançará meio abandonado, três
homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos.
Por entre pragas e impropérios gritavam possessos, furiosos:
- Não pode ser!
- Isto é um roubo!
- Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
- Somos irmãos – esclareceu o mais velho – e recebemos como herança
esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo receber a
metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e, ao Harim, o mais moço,
deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma
35 camelos, e, a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a
metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça e a nona parte de 35
também não são exatas?
- É muito simples – atalhou o Homem que Calculava. – Encarrego-me de
fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da
herança este belo animal que em boa hora aqui nos trouxe!
Neste ponto, procurei intervir na questão:
- Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir
a viajem se ficássemos sem o camelo?
- Não te preocupes com o resultado, ó Bagdali! – replicou-me em voz
baixa Beremiz – Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e
verás no fim a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em
entregar-lhe o meu belo jamal, que imediatamente foi reunido aos 35 ali
presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
- Vou, meus amigos – disse ele, dirigindo-se aos três irmãos -, fazer a
divisão justa e exata dos camelos que são agora, como vêem em número de 36.
E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
- Deverias receber meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio.
Receberás a metade de 36, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que
saíste lucrando com esta divisão.
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
- E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35, isto é 11 e pouco.
Vais receber um terço de 36, isto é 12. Não poderás protestar, pois tu também
saíste com visível lucro na transação.
E disse por fim ao mais moço:
E tu jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber
uma nona parte de 35, isto é 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36, isto é,
O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade:
- Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir – partilha em que
todos três saíram lucrando – couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e
4 ao terceiro, o que dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos. Dos 36 camelos,
sobram, portanto, dois.
Um pertence como sabem ao bagdáli, meu amigo e companheiro, outro
toca por direito a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado
problema da herança!
- Sois inteligente, ó Estrangeiro! – exclamou o mais velho dos três irmãos.
– Aceitamos a vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade!
E o astucioso Beremiz – o Homem que Calculava – tomou logo posse de
um dos mais belos “jamales” do grupo e disse-me, entregando-me pela rédea o
animal que me pertencia:
- Poderás agora, meu amigo, continuar a viajem no teu camelo manso e
seguro! Tenho outro, especialmente para mim!
E continuamos nossa jornada para Bagdá.

Um comentário:

  1. O homem que calculava deveria ser obrigatoria a leituras nas escolas, já li adorei..
    Luiza

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